terça-feira, 19 de abril de 2011

Por Não Estarem Distraídos




Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles.
Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles.
Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração.
Como eles admiravam estarem juntos!
Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.


-Clarice Lispector

O Fazedor de Amanhecer


Bernardo é quase árvore.
Silêncio dele é tão alto que os passarinhos ouvem de longe.
E vêm pousar em seu ombro. 
Seu olho renova as tardes.
Guarda num velho baú seus instrumentos de trabalho:
um abridor de amanhecer
um prego que farfalha
um encolhedor de rios – e 
um esticador de horizontes.
(Bernardo consegue esticar o horizonte usando três fios de teias de aranha. A coisa fica bem esticada). Bernardo desregula a natureza: 
Seu olho aumenta o poente.(Pode um homem enriquecer a natureza com a sua incompletude?)

-Manoel de Barros

quarta-feira, 16 de março de 2011

Metáfora Pura

Então, pode acabar.
Como o final de uma longa gravação de um filme.
Destroem-se os cenários, para que nenhuma lembrança reste,
Apagam-se as luzes, e é tudo recolhido com tanta rapidez, com tanta frieza, que quase não se consegue mais lembrar o que ali havia existido.
É como aquele manhã de quarta-feira de cinzas que parece apagar todos os sorrisos e todos os amores do carnaval que passou, tornando lembrança aquilo que no dia anterior foi um momento inesquecível.


Como são especiais as noites em que há o que comemorar.
O sangue parece mais limpo, e o sorriso, mesmo que amarelado, torna-se mais vibrante e aquela dor já nem dói tanto assim.
Os tolos apaixonados se entregam, os casais de longa data se entregam, os amantes efêmeros, esses sim se entregam, os recatados e tímidos, mesmo que sutilmente, se entregam e até mesmo aquela Senhora apoiada na janela, que já não tem mais aquele para se entregar, admira a movimentação passar, e com um leve sorriso e doces lembranças dos seus tempos áureos, se entrega. 


E por fim, o que seria da alegria se ela nunca tivesse final? Um eterno vazio, recheado de um sentimento só, a felicidade. Sem tristezas para deixa-la mais bonita, sem lágrimas para enfeitar e sem versos baratos de poesias melancólicas e enfadonhas para desopilar nossos fígados.


E então, posso acabar. Por que um dia... Acaba! Seja mais cedo, ou seja mais tarde. Nada é para sempre. Que bom!



Maya Costa

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Minhas Histórias I

 Para começo de conversa, ele é um perfeito idiota.
 Ele é grosso, mal educado, egocêntrico, sacana, feio e prepotente. Além de tudo, é careca, tem um dente de prata, a voz roca, é magrelo, cheio de tatuagens, bebe e fuma o tempo todo e é velho!

 Mas eu nunca vou me esquecer do dia em que o conheci...

 Era alguma noite dessas em que reunimos alguns amigos após o trabalho para tomar uma cerveja e fumar uns cigarros. Eu me sentia no estado mais pleno de realização com a minha vida, era como se nada naquele momento pudesse me tirar o foco, me sentia bem! A noite era quente e agradável. E foi como eu sempre que digo que é impossível acontecer, a primeira vista. Pode me chamar de tola por gostar de alguém sem ao menos saber quem é, ou como é. Mas o meu sexto sentido não costuma falhar. E olhei, e gostei, foi isso. Não foi uma paixão, nem um amor a primeira vista, foi só um gostar. Ele se fazia diferente de tudo a sua volta, de todos, até mesmo de mim. O seu dom? Deixar as pessoas o mais sem graça possível. Um completo sacana... Mas acho que eu enxerguei além disso, depois de um certo tempo, claro. Essa noite não passou disso.

 Não demora muito e um novo encontro acontece, dessa vez com mais tempo, mais disponibilidade, mais oportunidades. Quando ele chegou, foi como se todos ali tivessem por um momento desaparecido, e eu tivesse novamente 14 anos, sem saber o que falar. Não precisou muito para eu cair de volta na realidade e retomar tudo que tinha anteriormente planejado falar. Porém, a surpresa, ele não era como os outros, ele não era previsível! Sabe aquele tipo de homem que cai em uma frase de efeito bonita jogada com um ar meio sedução intelectual? Pois é, ele não era desses. Como eu disse, seu dom de fazer as pessoas perderem o rebolado era ótimo. Lá estava eu, desarmada, sem frases de efeito, sem saber exatamente onde estava pisando. Foi ai que eu percebi que ele não era do tipo de pessoa que se decifra rápido, e eu gostei disso.
Depois dessa descoberta, o resto foi só perfumaria. Os olhares diziam mais do que qualquer filosofia barata de conquista. Foi com ele que eu aprendi a me calar em alguns momentos. Surgiu então, uma admiração recíproca, um sentimento mútuo, e uma sensação de "Por que ele(a) gosta de mim?", nenhum dos dois ousou sequer um dia perguntar isso em voz alta.

 Veja só que ironia do destino, a garota que não queria se envolver emocionalmente com ninguém durante um bom tempo, da noite para o dia está, eu diria, se envolvendo?! Eu acredito que realmente estava, porém de uma maneira sutil e diferente... Vê-lo era quase que confortante. Me sentia segura com a sua presença, mesmo que distante. E quando estávamos juntos me sentia plena, feliz, e não queria saber se isso tinha nome. Ele era um rei, que me fazia sua rainha... O melhor lugar, a melhor bebida, o cigarro da preferência e todo o adorno de qualidades possíveis que ele enxergava em mim. Um vez perguntaram a ele por que eu estava com ele, e ele disse que era porque eu estava pagando os meus pecados. Ele nunca foi romântico, e eu agradeço por isso. Nunca foi preciso, ele sempre foi ideal, da maneira mais estranha possível, mas ideal.

 Era incrível como todos me perguntavam como eu tinha coragem de estar com ele. Aquele ser tão escroto, aquela figura tão arrogante, e tudo aquilo que eu citei no começo, e que ele realmente mostrava ser.
Com o tempo eu percebi que só conseguia gostar dele porque não conhecia só essa mascara usada para causar impacto, eu o conhecia mesmo, pelo menos é assim que eu espero pensar sempre. Eu era capaz de enxergar dentro dos seus olhos quando tinha um problema, era capaz de sentir no seu abraço apertado o quanto me queria bem, percebia nos mínimos detalhes a sua preocupação com outras pessoas e acima de tudo a sua paixão por ser A.S.S.A. Era quase que um vício, um amor incondicional, capaz de faze-lo esquecer de si mesmo, matar e morrer por isso. Eu o admirei, e admiro muito, como um grande homem, um amoroso pai e um verdadeiro Abutre. Eu tive a grande chance de presenciar ele defender tudo isso com sua própria vida, e isso me fazia gostar cada vez mais, e acima de tudo respeita-lo. Nunca ninguém vai entender, mas isso não importa, porque eu sei que ele entende.

 Eu não vou contar sobre o final, porque não existiu final, nunca vai existir, não enquanto eu puder contar a história da minha vida, enquanto eu respirar e enquanto eu ainda o respeitar...
É só fechar os olhos que eu ainda posso ver, sentir, ouvir. De vez em quando, em noites quentes como a de hoje, eu me lembro dos bons momentos, das boas risadas e as vezes dos silêncios. É como se ele estivesse aqui.

 Ele nasceu pra isso. Para cruzar o asfalto de fora à fora. Para deixar em cada canto uma história para alguém contar, seja de tragédia, terror ou até mesmo de amor... Essa que eu contei, foi uma história de momentos felizes. Momentos esses que eu jamais espero esquecer. Que fique claro que ele não tem ponto fixo, nem parada, muito menos dona. Ele é um Abutre, pronto para voar a qualquer instante, e ninguém pode segurar... Mas quem sabe um dia em uma madrugada dessas, um Abutre não ouse pousar no meu telhado, e por lá ficar até amanhecer o dia... Eu contaria essa história também.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

O bom filho à casa retorna...

É bom estar de volta, mesmo que por pouco tempo, e mesmo que nesse meio tempo eu não possa ver todas as pessoas que tenho e morro de saudade.
Final do ano, clima natalino, cidade nova, amigos novos...

Hoje caminhando por São Paulo me veio a senssação de nunca ter saído daqui, de nunca ter deixado de viver as coisas que eu vivi aqui, de sempre estar em casa.
Não vou agradecer por tudo nem por todos... A virada de ano não muda nada além do calendário, mudanças são constantes...

Saudades? Sentimento bom que eu sinto, foram tantos momentos, tantas risadas, choros e experiências inesquecíveis!!!
É bom estar escrevendo de novo, mesmo sem saber muito bem o que, é bom estar bem, é bom ter vivido 2010!!!

Esse foi um ano de pessoas raras... Raras nos gestos, nos olhares, nas palavras e no simples jeito de ver a vida.

Não quero me prolongar, ainda tenho muito o que matar saudade, existem raros amigos que ainda não reencontrei!

Sem menos.

Maya

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Vou Por aí

Os tempos de tormenta chegaram e já não há mais a mesma calmaria. Há de ser aquele vento que soprou com força bruta e trouxe junto a ele más lembranças e maus olhados. O mar que banha meu corpo é o mesmo que naufraga minhas embarcações com destino à esperança.

Que doce, breve e esquisita é a vida! Nos faz acreditar que já passamos por tudo, e que para tudo que já passamos temos a fórmula de como solucionar nas mãos. Depois ela própria nos coloca à frente de situações inimagináveis.
Agora acalma-te que depois da tempestade vem a calmaria, depois da briga vem o beijo, depois da cortina os aplausos e vem como se não existisse mais nada capaz de nos fazer sofrer, de nos fazer chorar. A mudança é sempre positiva, mesmo que no começo doa. E vai doer, mas ela precisa acontecer.

Guarda na mala de partida algumas poucas e boas lembranças: um sorriso amarelado, um abraço que a chuva molhou, um reencontro que a vida ocasionou e aquela noite que esquecida pelas outras pessoas se tornou manhã. Leva nos ouvidos palavras bonitas, faladas em um português não muito correto que você ouvira quando segurou a sacola daquela Senhora no ônibus, ou mesmo aquelas perfeitamente ditas na hora certa quando os raios de sol adentravam o quarto e a única coisa que se via era a beleza. Vai sem medo, e sem vergonha de saber que talvez seja preciso voltar. Vai de corpo e alma. Vai.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

:: Escutatório :: Rubem Alves

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.

Escutar é complicado e sutil. Diz o Alberto Caeiro que “não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma“. Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Aí a gente que não é cego abre os olhos. Diante de nós, fora da cabeça, nos campos e matas, estão as árvores e as flores. Ver é colocar dentro da cabeça aquilo que existe fora. O cego não vê porque as janelas dele estão fechadas. O que está fora não consegue entrar. A gente não é cego. As árvores e as flores entram. Mas - coitadinhas delas - entram e caem num mar de idéias. São misturadas nas palavras da filosofia que mora em nós. Perdem a sua simplicidade de existir. Ficam outras coisas. Então, o que vemos não são as árvores e as flores. Para se ver e preciso que a cabeça esteja vazia.

Faz muito tempo, nunca me esqueci. Eu ia de ônibus. Atrás, duas mulheres conversavam. Uma delas contava para a amiga os seus sofrimentos. (Contou-me uma amiga, nordestina, que o jogo que as mulheres do Nordeste gostam de fazer quando conversam umas com as outras é comparar sofrimentos. Quanto maior o sofrimento, mais bonitas são a mulher e a sua vida. Conversar é a arte de produzir-se literariamente como mulher de sofrimentos. Acho que foi lá que a ópera foi inventada. A alma é uma literatura. É nisso que se baseia a psicanálise...) Voltando ao ônibus. Falavam de sofrimentos. Uma delas contava do marido hospitalizado, dos médicos, dos exames complicados, das injeções na veia - a enfermeira nunca acertava -, dos vômitos e das urinas. Era um relato comovente de dor. Até que o relato chegou ao fim, esperando, evidentemente, o aplauso, a admiração, uma palavra de acolhimento na alma da outra que, supostamente, ouvia. Mas o que a sofredora ouviu foi o seguinte: “Mas isso não é nada...“ A segunda iniciou, então, uma história de sofrimentos incomparavelmente mais terríveis e dignos de uma ópera que os sofrimentos da primeira.

Parafraseio o Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma.“ Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor. No fundo somos todos iguais às duas mulheres do ônibus. Certo estava Lichtenberg - citado por Murilo Mendes: “Há quem não ouça até que lhe cortem as orelhas.“ Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil da nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos...

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos, estimulado pela revolução de 64. Pastor protestante (não “evangélico“), foi trabalhar num programa educacional da Igreja Presbiteriana USA, voltado para minorias. Contou-me de sua experiência com os índios. As reuniões são estranhas. Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, como se estivessem orando. Não rezando. Reza é falatório para não ouvir. Orando. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as idéias estranhas. Também para se tocar piano é preciso não ter filosofia nenhuma). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito. Pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que julgava essenciais. Sendo dele, os pensamentos não são meus. São-me estranhos. Comida que é preciso digerir. Digerir leva tempo. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se falo logo a seguir são duas as possibilidades. Primeira: “Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava eu pensava nas coisas que eu iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado.“ Segunda: “Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou.“ Em ambos os casos estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada. O longo silêncio quer dizer: “Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou.“ E assim vai a reunião.

Há grupos religiosos cuja liturgia consiste de silêncio. Faz alguns anos passei uma semana num mosteiro na Suíça, Grand Champs. Eu e algumas outras pessoas ali estávamos para, juntos, escrever um livro. Era uma antiga fazenda. Velhas construções, não me esqueço da água no chafariz onde as pombas vinham beber. Havia uma disciplina de silêncio, não total, mas de uma fala mínima. O que me deu enorme prazer às refeições. Não tinha a obrigação de manter uma conversa com meus vizinhos de mesa. Podia comer pensando na comida. Também para comer é preciso não ter filosofia. Não ter obrigação de falar é uma felicidade. Mas logo fui informado de que parte da disciplina do mosteiro era participar da liturgia três vezes por dia: às 7 da manhã, ao meio-dia e às 6 da tarde. Estremeci de medo. Mas obedeci. O lugar sagrado era um velho celeiro, todo de madeira, teto muito alto. Escuro. Haviam aberto buracos na madeira, ali colocando vidros de várias cores. Era uma atmosfera de luz mortiça, iluminado por algumas velas sobre o altar, uma mesa simples com um ícone oriental de Cristo. Uns poucos bancos arranjados em “U“ definiam um amplo espaço vazio, no centro, onde quem quisesse podia se assentar numa almofada, sobre um tapete. Cheguei alguns minutos antes da hora marcada. Era um grande silêncio. Muito frio, nuvens escuras cobriam o céu e corriam, levadas por um vento impetuoso que descia dos Alpes. A força do vento era tanta que o velho celeiro torcia e rangia, como se fosse um navio de madeira num mar agitado. O vento batia nas macieiras nuas do pomar e o barulho era como o de ondas que se quebram. Estranhei. Os suíços são sempre pontuais. A liturgia não começava. E ninguém tomava providências. Todos continuavam do mesmo jeito, sem nada fazer. Ninguém que se levantasse para dizer: “Meus irmãos, vamos cantar o hino...“ Cinco minutos, dez, quinze. Só depois de vinte minutos é que eu, estúpido, percebi que tudo já se iniciara vinte minutos antes. As pessoas estavam lá para se alimentar de silêncio. E eu comecei a me alimentar de silêncio também. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir. Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras. E música, melodia que não havia e que quando ouvida nos faz chorar. A música acontece no silêncio. É preciso que todos os ruídos cessem. No silêncio, abrem-se as portas de um mundo encantado que mora em nós - como no poema de Mallarmé, A catedral submersa, que Debussy musicou. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Me veio agora a idéia de que, talvez, essa seja a essência da experiência religiosa - quando ficamos mudos, sem fala. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar. Para mim Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto...