quinta-feira, 3 de maio de 2012

Vira-Tempo


Sempre simpatizei com relógios de ponteiro
Nunca os digitais
Vira e mexe eu digo: "Esses seres humanos e os seus relógios digitais"

O tic-tac do relógio de ponteiro ecoa por cada canto da casa
Ecoando o tic e o tac
Por cada canto da casa vazia e de suas bugigangas empoeiradas 
Por cada canto do meu corpo empoeirado e vazio

Me distraio por hora com o relógio de ponteiro
Gosto dos relógios atrasados, me parece um vira-tempo.
Me distraio e aos poucos esqueço até do que estou escrevendo.

O tic-tac do relógio de ponteiro ecoa por cada canto da casa
Ecoando o tic e tac
Pelo canto do canto, onde eu canto e logo me pego de canto. 

Aos poucos me distraio.


Maya Costa 


quarta-feira, 11 de abril de 2012

La Bohemia



Madrugadas em claro são boas para os pensamentos da gente. 
 Pensamentos rimados transbordam e se perdem naquela coisa grande azul escura. Quanta beleza passa desapercebida pelos olhos dos comuns, não pelos meus. Aspirante a escritora e poetisa afirmo sem titubear: As coisas boas são boas, as coisas bonitas são bonitas. 
 Basta de demagogia barata, falemos do que é real, dizem os sérios acadêmicos. Ora meu Senhor, e o que há nesse mundo de mais real do que a beleza daqueles que passam pelo mundo encantados. Saudosista sim, e com muito orgulho. Por muitos chamada de boêmia é aquele lugar onde ficam as coisas mais cheias de boniteza. Onde o copo de cerveja quente descansa em cima da mesa, esquentou entre uma filosofia e outra, pouco importa. Uma frase dita por um camarada, um batida na mesa, um toque na corda do velho violão e pronto, tá feita a poesia cantada que logo se esquece e dá lugar à outra. 
 Amores vem e vão, entre um samba e outro a noite vai desvanecendo e dando lugar ao amanhecer. De longe se vê o céu avermelhado de um novo-velho dia. Quanta beleza que nem cabe no vasto horizonte que eu vejo. 
 Pois é camarada, é como dizem: As coisas boas são boas, as coisas bonitas são bonitas. O resto é perfumaria. 
 O céu, a luas, as estrelas, você. Diz o malandro sem maldade nenhuma para aquela dama do vestido florido. Ora bolas, os malandros também amam. Talvez amem mais e melhor do que muita gente de fina estampa por aí. Volta pra casa com seu caminhar manso e cansado, porém satisfeito. Já ela, contente que nem cabe em si, vai derramando as flores do vestido pelo chão de volta. Ah, como as coisas bonitas são bonitas.
 Escrevendo a gente nem se dá conta mais do que foi ou deixou de ser. Só se sabe que é. 
Outros domingo desses, desses domingos quentes de verão, sentada em meio a carros e pessoas na Avenida Paulista uma camarada das antigas disse como quem diz algo pra ninguém, como quem diz pra vida mesmo: Paulista, varanda da gente. Bom é saber deleitar disso. 
 Me perco em mil pensamentos, linhas e letras de beleza que não caberiam no mundo inteiro. Há mais beleza entre nós, meros mortais, do que conhece a nossa vã e pouco sábia filosofia.
 Me limito a não esquecer que as coisas boas são boas, as coisas bonitas são bonitas. 


Maya Costa.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Love and Some Verses



Outro dia desses eu dei de cara com aquele sujeito que não sabe mentir.

Ali mesmo, jogado na calçada ele me falou de amores e alguns versos.
Disse que queria ouvir ela dizer 
"Você é meu?"



Aquele sujeito, muitos dizem por aí, é bom rapaz. Boa pinta. Gente fina. 

Já eu, com um ar de mentirosa, digo que ele não sabe mentir.


R U mine? 


Maya Costa.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Liberta Teu Peito.


Sexo, carinho, cigarro e café ao acordar é de muito bom tom.
Sexo na boa e velha cama ou no chão;
Carinho daqueles que a gente sorri; Só ri.
Um ou dois cigarros pra não perder o costume de brincar com a fumaça;

Ah, de fato tudo isso é de muito bom tom meu Senhor.

Já ia me esquecendo do café;
Café no copo americano mesmo. 


Maya Costa

quinta-feira, 22 de março de 2012

Nada Era O Que É.



Hoje ao despertar pela manhã, já tardava no relógio a uma da tarde.
Ao acordar, não abri os olhos de supetão, acordada permaneci com os olhos ainda fechados. Me preocupo muito com a primeira visão que eu terei no meu dia. Carrego comigo a estranha mania da Alice de pensar em pelo menos seis coisas impossíveis antes de me levantar da cama, por que creio eu que assim nada que aconteça no meu dia será tão impossível quantos as que eu imaginei. Antes de me levantar também gosto de relembrar algumas coisas que eu sonhei durante a noite, é como lembrar de um filme que você gostaria de ver novamente. Talvez seja um jeito de não acordar, ou talvez seja um jeito novo de morrer.

O dia não pode começar sem café e cigarro, o meu melhor café da manhã. Recosto-me na varanda ensolarada acompanhada dos velhos companheiros, fico por ali divagando pensamentos, letras e linhas que vão se derramando vagarosamente como aquela gota de café na borda da copo. A fumaça do cigarro descansado no cinzeiro desenha junto com  os raios do sol imagens que só eu posso ver. Esse torna-se então o momento de maior prazer do meu dia. É como se cada pedaço do meu corpo fosse um gato acordando lentamente, cheio de manha e de prazer. E só aí então, sinto-me plena. Plenitude passageira, mas plena em um todo!

 Meu dia se resume em cafés, cigarros e algumas breves paixões. Procuro me apaixonar pelo menos três vezes ao dia. Mesmo que eu não saia de casa, mesmo que nada mude, mesmo que eu permaneça na varanda ensolarada até que sol se ponha. Acredite, é saudável apaixonar-se, mas não se esqueça de desapaixonar-se também. Breves paixões não podem sair do País das Maravilhas. Você pode encontrar um navio afundado com um rico tesouro dentro, mas não pode leva-lo para casa, se é que me entende.

 E assim vou morrendo de prazer cada dia mais. Apaixonando-me quantas vezes for preciso pelos mesmos sorrisos, pelos mesmos olhares, por poesias rimadas e palavras repetitivas. À mim meu caro, pouco me importa que sejam breves. São breves, mas são infinitas. Sou capaz de apaixonar-me e desapaixonar-me pela mesma pessoa mais de cinco vezes na semana, de corpo e alma lhe juro amor e ódio, pão e carne, água e vinho.
 Morro nessa inércia deliciosamente surpreendente.



Maya Costa

Ficando Velha e Louca



Eu sempre quis um homem culto, que colocasse Cartola pra tocar na vitrola enquanto fumasse um cigarro de filtro vermelho. Que tivesse o cabelo bagunçado, usasse chapéu e falasse de Sartre. Sabe aquele tipo encantador? Daqueles que eu as vezes eu vejo andando pela Vila Madalena, chapéu de lado, jeitão meio largado e dando aquela voltinha no bigode estilo Salvador Dali. Era tudo que eu queria.
Mas aí um dia, eu descobri que esses homens só são isso, e nada mais.
E o pior, elas não são bons o suficiente pra mim.
Por mais palavras difíceis que eles falem,
Por mais discos de vinil que eles colecionem,
Por mais filmes do Woody Allen que eles assistam,
Não faz a menor diferença.
Acho que as vezes aquilo que a gente mais sonha, na verdade, não foi feito pra gente.

Maya Costa

terça-feira, 6 de março de 2012

Do Lado Esquerdo

05/03/2012
02:26


Não sinto meu prazer.
Estou preso em minhas próprias nuvens de fumaça 
com os olhos imersos na nicotina, 
aguardando minha próxima bacia de café
tendo esperança de que a tragam com um sorriso no rosto.
Não sinto meu prazer.
Meus falsos júbilos já não me satisfazem.
Não há espaço na casca de alguém com o coração preenchido de lágrimas que se negam a cair nem ao menos uma vez
pelo cansaço de ter de enxuga-las novamente com os mesmo dedos calejados.
Esse mesmo tempo esse mesmo coração grita,
A MAS COMO GRITA!!
Grita em outras línguas o desejo de ser reanimado 
para que possa parar de bater apenas por funções mecânicas.
Somente meu segundo coração, 
que ainda ora e o acaricia através de sussurros diz:

"Pior que perder pra morte,
é perder pra vida!"


Eu sei que serei a deixar a agonia descansar no trilho do trem,
mas até lá, traga-me pra vida, 
traga-me...


Para você, amor.
Guilherme Würtz