terça-feira, 24 de maio de 2011

Sobre Cigarros e Amores



"E se eu não tivesse saído da cama naquela manhã gelada? Se por um acaso do destino eu não estivesse feliz e determinada? Se ao menos a roupa não tivesse ficado boa... Ou melhor ainda, se o dia fosse chato, se a melhor amiga fosse má companhia? Quem me dera eu não ficasse feliz e satisfeita a ponto de ir para casa sorrindo."

 Naquela dia o ônibus não se demorou a chegar, nem faltava um lugar para sentar. Felicidade quase completa. Se "quase" fosse uma palavra que me bastasse, mas não. Nunca fui impulsiva, mas naquele momento algo me fez saltar de prontidão do ônibus alguns pontos antes do meu. Eram quase umas oito da noite quando passei de um lado para o outro da avenida, coração entre os dedos suados e apertados, estômago revirando, breves vontades de rir, já não sabia mais o que era certo. Mas se ao menos o bom senso tivesse me levado para casa, onde apenas ficaria me perguntando se fizera a escolha certa. Porem, lá estava, na frente do seu prédio sem saber por que.

 Eu olhava para os números no interfone esperando alguns sinal, talvez um número da sorte ou uma luz na memória que me fizesse voltar à três anos atrás naquela noite extremamente parecida com a que eu me encontrava no momento. O que eu poderia fazer? Tocar em todos até encontrar o certo? Não seria muito normal, mas naquela altura quem era eu para julgar normalidades. Eu não sabia como seria encontra-lo depois de tanto tempo, nem como reconhece-lo, muito menos o que diria, mas não me importava nem um pouco, sabia que tinha que estar ali, sabia que minha vida mudaria por isso.

 Isso já faz mais de um ano, mas ainda hoje não consigo me recordar de quanto tempo eu fiquei ali na frente daquele prédio fumando mais de mil cigarros, roendo as unhas e tendo frenéticos ataques de risos incontroláveis. Pensei em espera-lo, eu o reconheceria? Ou melhor, ele se lembraria de mim? Da menina de 16 anos, que usava cabelos cumpridos e calça jeans e que hoje era dona de seu adorado cabelo curto e senhora de todo um estilo diferente, piercing no nariz e tatuagem nas costas?

 Entre um cigarro e outro eu me pegava ensaiando uma reação, o que ele diria, o que eu responderia, como explicar essa súbita aparição no meio da semana. Eu só poderia estar louca em achar que aquilo daria em mais alguma coisa a não ser em uma história engraçada que eu contaria para mim mesma milhões de vezes.

 Quando estava prestes a desistir e ir embora, talvez quem sabe tentar outro dia, ou nunca mais, esquecer aquela doideira de filme, de reencontro marcante, de amor; Como um sinal vi um rapaz que aparentava uns vinte e poucos anos entrando no prédio, sim, era aquela a hora de descobrir, de tentar, então com um ar de louca desvairada eu o perguntei se por um acaso conhecia um Fulano de Tal que morava ali. Que doce vida estranha, o rapaz morava com ele! Ora bolas! Então era isso? Eu finalmente consegui. Porem como nem tudo é realmente tão perfeito e cinematográfico, ele não se estava em casa ainda. Para que me queixar, eu já tinha conseguido e muito. Deixei ali apenas um rapaz muito assustado e meu número de telefone.

 A ansiedade de reencontra-lo deu lugar a ansiedade de chegar logo em casa, pensava eu que como uma boa filha da Lei de Murphy, ele ligaria antes de eu conseguir abrir o cadeado do portão. Dito e feito. Revirava a bolsa procurando a chave desesperadamente enquanto lá dentro o telefone gritava. O nervosismo me fazia rir desesperadamente em meio aquela situação. Quando finalmente consegui entrar, obviamente, o telefone já havia parado de tocar. Corri para ver a ultima ligação, não tinha como saber se era ele, apenas sabia que era um número desconhecido que provavelmente poderia ser. Provavelmente. Ligar ou não? Na pior, ou melhor, das intenções eu estaria apenas matando minha curiosidade. Enquanto o telefone chamava, meu coração na boca fazia meus suspiros gaguejarem. Eu não aguentei, desliguei depois da terceira chamada, confesso que estava parecendo de novo uma adolescente de 16 anos, mas o que eu poderia fazer, deixei por isso mesmo.

 Engraçado que quando deixamos de lado as coisas, elas simplesmente acontecem, talvez se eu ficasse ali ao lado do telefone ele não tocaria tão cedo, mas foi eu ir para o meu quarto e começar a me desfazer da meia-calça, da jaqueta, da esperança e do cachecol, que o telefone tocou novamente. Eu não me lembro de abrir a porta e atravessar o corredor até a sala para atender, só me lembro de atender tentando fazer uma voz de inesperada surpresa. Sim, sim, era ele. E para o meu espanto eu não precisei descrever muito quem era, ele já sabia, foi como ligar no dia seguinte do nosso primeiro e único encontro. Foi deveras engraçado. Tudo correu mais ou menos da maneira como eu imaginava, a menos pelo inesperado convite para encontra-lo naquela mesma noite, não titubeei, apenas gaguejei ao dizer que seria ótimo.

 Mais uma vez não me lembro de me vestir, pois também foi muito rápido. O ônibus não passava e tive a ligeira impressão que algumas pessoas que compartilhavam a espera junto comigo começaram a me achar um pouco louca... Ok, acho que muito louca, pois eu estava mais feliz que o normal, mais feliz do que é o aceitável de ser feliz em um ponto de ônibus. Dessa vez eu tinha tudo, o número do apartamento e a certeza de que o veria mais uma vez.

 Tentei me manter calma e agradável. Quando ele saiu pela porta do prédio eu pensei comigo: "Uau ele continua o mesmo". E com seu cavalheirismo e gentileza ele me reconquistou, talvez até mais do que quando leu um poema do Pablo Neruda na beirada da minha nuca. Sentados na mesa do bar foram cervejas, assuntos botados em dia, sorrisos, olhares, e todas aquelas formalidades de um flerte. Já não sabia mais que dia era, nem as horas e nem me recordava mais do tempo em que fiquei parada do outro lado da avenida. Não havia arrependimento, não havia mais nada além de um sentimento bom.

 Como nos cinemas, ele me convidou para entrar com o pretexto de ver um filme sobre o qual tínhamos conversado. Na verdade eu mal ouvi o convite, aceitaria tudo naquele momento, só não aceitaria me jogar do alto de um prédio em queda livre, pois aquilo eu já havia feito, me joguei em queda livre do seu olhar intimista. Não me lembrava muito do apartamento, apenas me lembrava do livro do Pablo Neruda que hoje está em alguma estante da minha casa. Eu não estava mais tão nervosa, não tinha mais por que, nada mais tinha por que.

 Sejamos sinceros, não conseguimos ver o filme. Talvez esse fosse meu maior medo, uma hora eu teria que baixar a guarda e deixar acontecer aquilo que era esperado. A situação era ideal, o momento era certo, ele ainda era o homem perfeito, me deixava louca com seus braços envolvendo minhas costas, seu rosto que por horas a fio eu ficava desenhando com a ponta dos dedos, e as palavras tinham o dom de desaparecer como se não fosse preciso falar nada. E não foi preciso. Minha alma congelava de prazer, era como dançar um bolero, você acha que não sabe mas quando ouve não consegue se controlar, era como se cada parte do meu corpo soubesse o que fazer. As mãos supriam aquilo que não era falado, os olhos iluminavam o quarto escuro e a pele era o único calor. Mais bonito que um poema do Neruda, mais gostoso que ouvir jazz, mais infinito que a madrugada.

 O relógio de ponteiro no criado mudo ao lado da cama, era só isso que ouvíamos por horas, ou sei lá quanto eu ficava recostada no seu peito, deitados na cama sentindo um sentimento que parecia eterno. Ele falava, contava histórias, ora triste, ora feliz, eu não sei muito bem sobre o que ele falava, eu apenas ouvia, não pela história, mas pelo som da sua voz. A madrugada virou manhã e o inconveniente despertador tocou as sete da matina, isso não acontece nos filmes.

 As noites viraram essa mesma rotina, esses mesmos devaneios. Ir para casa era torturante, quase um martírio, mas no caminho tudo tinha mais vida, as músicas faziam mais sentido, e as marcas no meu corpo ainda me faziam rir. Inspirada eu escrevia, ainda não entendo por que não contei essa história antes, talvez eu ainda não tivesse uma noção do final. Talvez até hoje eu não tenha essa noção, ou talvez eu tenha, só não entendo.

 Tempo, tempo, tempo, tempo. Algo começou a se transformar com o tempo. Talvez o bom senso tenha voltado para casa. Pena que foi para a casa errada. Um sentimento obsessivo tomava conta de mim, já não conseguia mais ser eu mesma, já não me baseava mais nas mesmas coisas, o brilho nos meus olhos me ofuscava. Sacrifícios como sair da minha casa a uma da manhã para encontra-lo, rendia-me a caprichos conforme a minha sede. A volta para casa já não era mais tão gratificante. A beleza foi se perdendo pelo chão do quarto, mais do que nossas peças de roupas que se misturavam no escuro na noite. Ainda me lembro de uma noite que fui caminhando até o mercado em frente a sua casa e enquanto esperava o ônibus para voltar o vi entrar, não sei por que, mas eu não tive vontade de atravessar a rua. Talvez fosse a companhia do bom senso.

 Em um madrugada qualquer eu fui até sua casa. Não fui feliz, naquela manhã eu acordara com a certeza de que teríamos um ultimo encontro. Teria sido melhor não ir, mas isso apenas adiaria o que já estava para acontecer a muito tempo. Fui para que se fosse acabar que pelo menos acabasse bem, se é que isso é possível. É, e não foi. Nessa noite não existiam duas almas na cama, apenas dois corpos gelados e incompatíveis. No final foi cada um para o seu lado, sem abraço, sem conversa, sem risos e sem sentimento bom. Em silêncio eu derramei algumas lágrimas, não sei se ele percebeu, mas mesmo que tivesse não haveria sensibilidade naquele momento, de ambas as partes. Minhas lágrimas não eram para ele, e sim para o adeus que não tem volta. Na manhã seguinte eu mal via a hora de partir, sofria mais na sua presença do que na distância física, de qualquer maneira já estávamos distantes. Ele me acompanhou ao ponto, e diferente de antes quando passados os últimos minutos grudados, ele disse adeus e virando a esquina se foi, eu subi no ônibus com um suspiro aliviado mesmo sabendo o sofrimento ainda estava por vir, e eu esperei.

 Ok. Chegamos ao fim, mas o final da história não é esse. Esse é o final do nosso, se é que posso chamar assim, relacionamento. Demorou muito para fechar as feridas, as do coração e as que ele me deixou nas costas, lembranças da ultima noite. Por um bom tempo foi difícil passar em frente ao prédio e não olhar procurando qualquer sinal da sua presença, até mesmo ir ao mercado me deixava apreensiva, eu poderia virar qualquer corredor e dar de cara com ele, qualquer música, qualquer poesia. Acho que o sofrimento é a parte mais brega do amor.

Demorou muito, mas um dia eu acordei de manhã e me dei conta. Fiz as contas e fiz de conta. É como dizem, no final você sempre ri de tudo, então relembrando tudo isso que aqui lhes contei, tomando um bom chá na mesa da cozinha eu dei uma boa gargalhada daquelas de doer a barriga e decidi ir ao cinema ver um bom filme como a tempos não fazia.
De lá pra cá muita coisa mudou, eu não moro mais na mesma casa, nem na mesma cidade, nem tenho o mesmo emprego, mudei o cabelo e eu ainda estou viva! Continuo me apaixonando todos os dias, me entregando, errando, aprendendo... sofrer é opcional. É como eu sempre dizia à ele: Vamos nos limitar apenas a viver meu caro, isso já basta!



Maya Costa (terça-feira 24.05.2011)

Meu Adorável Vagabundo

Meu adorável vagabundo
Chega como quem não quer nada, com uma cara de dar pena
Olhos de lince com um ar distraído, contente com a vida e bem humorado
Sorri, acena, brinca... Como se fosse um criança, ele conquista
Não dá pra notar a sua sutil e imperceptível maldade
Há quem possa jurar que nunca viu qualquer malícia; Por outro lado há quem acredite
mais em notas de três reais do que na sua própria figura.
Personagem vestido de amigo, companheiro de todas as horas, boemio de muitos amigos.
Lobo em pele de cordeiro ele vaga pelas madrugadas a dentro, com sua elegância
incontestável.
Como se nada o pudesse afetar ele enfrenta perigos, leis e qualquer coisa considerada
proibida; Para ele tudo é capaz de ser inimaginavelmente fácil.
É como se a sorte gostasse dele, e por um simples gostar ela resolvesse acompanha-lo
Não importa o que aconteça, nao importa o que digam, não importa mais nada; Ele é.
Resistir não é possível. Podem ignora-lo, pois nunca ele ligou para essas bobagens.
Se não sobra um copo de cerveja nesse bar, não importa, tenta no outro e por ai vai
Aceitável e inocente até que se prove o contrário. Desaventurada é aquela que se deixa
levar por seus agrados e desagrados; Aquela que quando menos espera está observando seus
traços de idade, deixando o sono de lado, perdendo a noção das horas enquanto tenta se
convencer de que não vai durar; Em vão.
Ele não dá tempo para pensar, quando você se dá conta, ele já veio, já passou, já marcou,
e só o que resta são horas em baixo do chuveiro pensando no seu retorno.
E ela espera, espera e espera; Pode esperar minha cara, ele não voltará Tao cedo.
Enfim ela dorme, para acordar na manha seguinte e como quem retorna ao mesmo sonho da
noite anterior, ela volta a pensar como e quando será o seu retorno.
Enquanto ela nega e sofre ao mesmo tempo, ele veste sua pele limpa e renovada,           
e lá vai ele novamente, cego de prazer do seu próprio ego, cercado dele mesmo por todos
os lados.
"Todos os dias de manhã, vem a nostalgia das besteiras, e das besteiras, e das besteiras que fizemos ontem"

Maya Costa (domingo 22.05.2011)

Nescafé



Enquanto olhares se cruzam em bares sujos nos becos de Londres, os olhos de Pedro se abrem para um velho novo dia; Enquanto corpos suados se entrelaçam no banco traseiro de um Camaro velho em alguma rua escura, um simples desenlace das mãos de Pedro e Monica ocorre em meio dos travesseiros; Enquanto o silêncio da madrugada é quebrado pelos carros barulhentos, buzinas atordoadas e despertadores atrasados, um silêncio quase que insuportável adentra o quarto mais forte do que os raios de sol que passam pelas frestas da janela; Enquanto o nascimento de uma nova vida é comemorado na Índia com muita festa, cor e alegria, na tumultuada cidade de São Paulo, dentro de um apartamento antigo abarrotado de lembranças, só se pode ouvir o barulho da cafeteira, o relógio de ponteiro doze minutos atrasados e o amor de Pedro e Monica que uma noite dessas saiu pela porta por onde entrou e nunca mais retornou.

Eram como completos estranhos que acordaram um dia por acaso do destino ao lado um do outro. A falta daquele amor que saiu pela porta os tornara completos desconhecidos. Vestiam-se calados. Meio que sem jeito ela abotoava o sutiã, quase que sem graça ele calçava os sapatos. As horas da manhã pareciam passar mais arrastadas que uma lesma. Durante o silencio sepulcral eles se perguntavam para onde teria ido aquele amor, será que voltaria a tempo do almoço?

Uma xícara de café, Pedro não perdera ainda o costume de servir Monica da maneira como ela gostava, mais leite do que café. Ela forçou um sorriso, que lhe costuraram rugas em volta dos olhos baixos. Ela estaria perguntando a si mesma se fizera a escolha certa? Nenhum dos dois ousara quebrar o silêncio, de tanto podia-se ouvir com perfeição cada movimento de vida da janela para fora. E antes que Pedro pudesse tomar um pouco de ar e um pouco de café, Monica levantou-se e foi em direção a varanda ensolarada. Lá estavam os dois, separados, agora por duras e frias paredes de concreto.

Quando o relógio atrasado marcava meio dia e trinta e dois, pode-se ouvir a voz abafada de Monica que vinha do quarto, falava ao telefone. Pedro sentara na frente da televisão e dali não saíra, nem ao menos ligou-a. Em uma de suas mãos frias esquentava um copo de conhaque que refletia seus olhos marejados, sabia que a qualquer momento ela sairia daquele quarto, e enfim sairia daquela casa, e ali não mais retornaria tão cedo. Se ao menos ele tivesse forças para pedir que ficasse. Mas de nada adianta, o amor não obedece, quando ele quer ir, ele vai. E ao sair fecha a porta devagar para não acordar ninguém.

O som do sapato de Monica em direção a porta e a indiferença forçada no olhar de Pedro, dor constante e mutua. Então era isso? O amor ia acabar mais uma vez, machucando, fazendo chorar? Seria o trinco da porta se fechando e mais um ciclo se encerrando? Quantas vezes mais Pedro tomaria conhaque sem pensar em Monica? Quantas manhãs Monica sentaria na cozinha esperando seu café com mais leite do que café? Há quem mais importaria os doze minutos de atraso do relógio de ponteiro na sala do velho apartamento?

As horas se passaram, os dias se passaram, os meses se passaram, os anos se passaram... As vidas se passaram. Monica passou. Pedro passou. O amor continuou passando(passeando). Por aqui, por ali, no mesmo apartamento velho, pela mesma varanda ensolarada, tomando longos e demorados cafés, uns com mais leite, outros com menos, e até mesmo puros.
O amor está sempre indo e vindo de maneiras diferentes, e o relógio de ponteiro continua doze minutos atrasados.





Maya Costa (domingo 22.05.2011)

terça-feira, 19 de abril de 2011

Por Não Estarem Distraídos




Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles.
Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles.
Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração.
Como eles admiravam estarem juntos!
Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.


-Clarice Lispector

O Fazedor de Amanhecer


Bernardo é quase árvore.
Silêncio dele é tão alto que os passarinhos ouvem de longe.
E vêm pousar em seu ombro. 
Seu olho renova as tardes.
Guarda num velho baú seus instrumentos de trabalho:
um abridor de amanhecer
um prego que farfalha
um encolhedor de rios – e 
um esticador de horizontes.
(Bernardo consegue esticar o horizonte usando três fios de teias de aranha. A coisa fica bem esticada). Bernardo desregula a natureza: 
Seu olho aumenta o poente.(Pode um homem enriquecer a natureza com a sua incompletude?)

-Manoel de Barros

quarta-feira, 16 de março de 2011

Metáfora Pura

Então, pode acabar.
Como o final de uma longa gravação de um filme.
Destroem-se os cenários, para que nenhuma lembrança reste,
Apagam-se as luzes, e é tudo recolhido com tanta rapidez, com tanta frieza, que quase não se consegue mais lembrar o que ali havia existido.
É como aquele manhã de quarta-feira de cinzas que parece apagar todos os sorrisos e todos os amores do carnaval que passou, tornando lembrança aquilo que no dia anterior foi um momento inesquecível.


Como são especiais as noites em que há o que comemorar.
O sangue parece mais limpo, e o sorriso, mesmo que amarelado, torna-se mais vibrante e aquela dor já nem dói tanto assim.
Os tolos apaixonados se entregam, os casais de longa data se entregam, os amantes efêmeros, esses sim se entregam, os recatados e tímidos, mesmo que sutilmente, se entregam e até mesmo aquela Senhora apoiada na janela, que já não tem mais aquele para se entregar, admira a movimentação passar, e com um leve sorriso e doces lembranças dos seus tempos áureos, se entrega. 


E por fim, o que seria da alegria se ela nunca tivesse final? Um eterno vazio, recheado de um sentimento só, a felicidade. Sem tristezas para deixa-la mais bonita, sem lágrimas para enfeitar e sem versos baratos de poesias melancólicas e enfadonhas para desopilar nossos fígados.


E então, posso acabar. Por que um dia... Acaba! Seja mais cedo, ou seja mais tarde. Nada é para sempre. Que bom!



Maya Costa

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Minhas Histórias I

 Para começo de conversa, ele é um perfeito idiota.
 Ele é grosso, mal educado, egocêntrico, sacana, feio e prepotente. Além de tudo, é careca, tem um dente de prata, a voz roca, é magrelo, cheio de tatuagens, bebe e fuma o tempo todo e é velho!

 Mas eu nunca vou me esquecer do dia em que o conheci...

 Era alguma noite dessas em que reunimos alguns amigos após o trabalho para tomar uma cerveja e fumar uns cigarros. Eu me sentia no estado mais pleno de realização com a minha vida, era como se nada naquele momento pudesse me tirar o foco, me sentia bem! A noite era quente e agradável. E foi como eu sempre que digo que é impossível acontecer, a primeira vista. Pode me chamar de tola por gostar de alguém sem ao menos saber quem é, ou como é. Mas o meu sexto sentido não costuma falhar. E olhei, e gostei, foi isso. Não foi uma paixão, nem um amor a primeira vista, foi só um gostar. Ele se fazia diferente de tudo a sua volta, de todos, até mesmo de mim. O seu dom? Deixar as pessoas o mais sem graça possível. Um completo sacana... Mas acho que eu enxerguei além disso, depois de um certo tempo, claro. Essa noite não passou disso.

 Não demora muito e um novo encontro acontece, dessa vez com mais tempo, mais disponibilidade, mais oportunidades. Quando ele chegou, foi como se todos ali tivessem por um momento desaparecido, e eu tivesse novamente 14 anos, sem saber o que falar. Não precisou muito para eu cair de volta na realidade e retomar tudo que tinha anteriormente planejado falar. Porém, a surpresa, ele não era como os outros, ele não era previsível! Sabe aquele tipo de homem que cai em uma frase de efeito bonita jogada com um ar meio sedução intelectual? Pois é, ele não era desses. Como eu disse, seu dom de fazer as pessoas perderem o rebolado era ótimo. Lá estava eu, desarmada, sem frases de efeito, sem saber exatamente onde estava pisando. Foi ai que eu percebi que ele não era do tipo de pessoa que se decifra rápido, e eu gostei disso.
Depois dessa descoberta, o resto foi só perfumaria. Os olhares diziam mais do que qualquer filosofia barata de conquista. Foi com ele que eu aprendi a me calar em alguns momentos. Surgiu então, uma admiração recíproca, um sentimento mútuo, e uma sensação de "Por que ele(a) gosta de mim?", nenhum dos dois ousou sequer um dia perguntar isso em voz alta.

 Veja só que ironia do destino, a garota que não queria se envolver emocionalmente com ninguém durante um bom tempo, da noite para o dia está, eu diria, se envolvendo?! Eu acredito que realmente estava, porém de uma maneira sutil e diferente... Vê-lo era quase que confortante. Me sentia segura com a sua presença, mesmo que distante. E quando estávamos juntos me sentia plena, feliz, e não queria saber se isso tinha nome. Ele era um rei, que me fazia sua rainha... O melhor lugar, a melhor bebida, o cigarro da preferência e todo o adorno de qualidades possíveis que ele enxergava em mim. Um vez perguntaram a ele por que eu estava com ele, e ele disse que era porque eu estava pagando os meus pecados. Ele nunca foi romântico, e eu agradeço por isso. Nunca foi preciso, ele sempre foi ideal, da maneira mais estranha possível, mas ideal.

 Era incrível como todos me perguntavam como eu tinha coragem de estar com ele. Aquele ser tão escroto, aquela figura tão arrogante, e tudo aquilo que eu citei no começo, e que ele realmente mostrava ser.
Com o tempo eu percebi que só conseguia gostar dele porque não conhecia só essa mascara usada para causar impacto, eu o conhecia mesmo, pelo menos é assim que eu espero pensar sempre. Eu era capaz de enxergar dentro dos seus olhos quando tinha um problema, era capaz de sentir no seu abraço apertado o quanto me queria bem, percebia nos mínimos detalhes a sua preocupação com outras pessoas e acima de tudo a sua paixão por ser A.S.S.A. Era quase que um vício, um amor incondicional, capaz de faze-lo esquecer de si mesmo, matar e morrer por isso. Eu o admirei, e admiro muito, como um grande homem, um amoroso pai e um verdadeiro Abutre. Eu tive a grande chance de presenciar ele defender tudo isso com sua própria vida, e isso me fazia gostar cada vez mais, e acima de tudo respeita-lo. Nunca ninguém vai entender, mas isso não importa, porque eu sei que ele entende.

 Eu não vou contar sobre o final, porque não existiu final, nunca vai existir, não enquanto eu puder contar a história da minha vida, enquanto eu respirar e enquanto eu ainda o respeitar...
É só fechar os olhos que eu ainda posso ver, sentir, ouvir. De vez em quando, em noites quentes como a de hoje, eu me lembro dos bons momentos, das boas risadas e as vezes dos silêncios. É como se ele estivesse aqui.

 Ele nasceu pra isso. Para cruzar o asfalto de fora à fora. Para deixar em cada canto uma história para alguém contar, seja de tragédia, terror ou até mesmo de amor... Essa que eu contei, foi uma história de momentos felizes. Momentos esses que eu jamais espero esquecer. Que fique claro que ele não tem ponto fixo, nem parada, muito menos dona. Ele é um Abutre, pronto para voar a qualquer instante, e ninguém pode segurar... Mas quem sabe um dia em uma madrugada dessas, um Abutre não ouse pousar no meu telhado, e por lá ficar até amanhecer o dia... Eu contaria essa história também.